CARLOS PRONZATO - VINÍCIUS, QUE FALTA VOCÊ NOS FAZ.



Outubro chegou com uma doce noticia: o centenário de Vinícius de Moraes no dia 19. Enumerações de ofícios são dispensáveis em se tratando deste carioca universal que fez da paixão sua matéria de vida e poesia e tornou-se um gigante das letras e da música carregando o diminutivo de poetinha.

Entre 1913, ano do seu nascimento e 1980, ano da sua partida, lá se foram 67 anos de lidar com a fútil e bela argamassa da literatura dos clássicos, que estudou com afinco e a rude e noturna paisagem de álcool, fumaça e poesia em escuros botecos. No meio, as mulheres, esses seres insufladores tanto de sonetos exatos como de versos livres que desafiam a imaginação dos vates com a concretude das suas volumosas geografias – do corpo e da alma - por onde as naves da poesia de Vinicius navegaram com a maestria de um capitão de longo curso. Mulheres, amantes, esposas, modelos vivos de um pintor de palavras apaixonadas que perduram ao passar do tempo, belas, sensuais ou tristes e cheias de saudades no quotidiano de qualquer cidade ou na esquina mais remota de um coração suburbano.

Vinícius, como uma eterna primavera, retorna inteiro neste seu primeiro centenário com sua imprescindível revolução do amor e da simplicidade, suave como uma bossa nova, inquieto como um afro-samba, transparente como uma aquarela de Toquinho. Nestes tempos de cobiça financeira desenfreada, em que não há mais tempo para cantar baixinho no ouvido de ninguém, evocar Vinícius se torna tão necessário quanto saudável. Porque lembrar apenas uma única nota de uma parceria, por exemplo, com Tom é como uma gota de água cristalina, um oásis de música no deserto da industrialização dos ruídos de moda.

Parodiando o titulo do CD que Maria Bethânia gravou com músicas de Vinícius (“Que falta você me faz”) a relembrança do poeta da paixão faz jus a este sentimento de orfandade no qual navegamos, à deriva, há tantos anos. Com Vinícius revigoramos nosso lado humano, nosso lado apaixonado e sem limites onde a tristeza não tem fim e a felicidade - porque humana - sim.

Carlos Pronzato
Poeta e cineasta/documentarista
pronzato@bol.com.br




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