COM ANGELO ROMERO - OS CINQUENTA TONS DE CINZA





Angelo Romero – Academia Petropolitana de Letras
Seria muito bom se o mundo fosse colorido pelo antigo sistema “technicolor” dos antigos filmes norte-americanos. Se fosse, por exemplo, Petrópolis não apresentaria num único dia os 50 tons de cinzas de seus tradicionais dias nublados. Nos dias ensolarados, que são em menor número, é que podemos constatar como essa cidade é linda!

O cinza, infelizmente, reflete melhor a vida. Não é uma cor pura, definida, autêntica, como deveria ser a raça humana, em sua maioria. O cinza é o preto que ficou desbotado, ou o branco que ficou sujo. Abra os jornais, ligue a TV e se atualize com o que acontece em nossa cidade e no mundo. Para cada boa noticia que possa dignificar o homem, quantas podemos ler falando de guerra, violência, tragédias climáticas, fome, miséria, doenças, desastres, assassinatos, corrupção e etc.

Dia desses, a televisão mostrou uma imagem dolorosa: uma senhora passa mal e desmaia na calçada, bem na porta de um hospital (Clínica ou Casa de Saúde, não importa), administrada pelo Governo. Apesar do dramático apelo de quem a acompanhava, os responsáveis pelo estabelecimento hospitalar alegaram que não podiam atendê-la. Muito tempo se passou, e quando uma alma caridosa resolveu tomar providência, já era tarde demais e a pobre infeliz, que poderia ter sido salva, veio a falecer. Infeliz do brasileiro que hoje não tiver um plano de saúde. E por Deus, não me digam que esse foi um caso isolado porque outros idênticos já aconteceram, principalmente com pessoas idosas e muitos ainda irão acontecer sem que ninguém vá preso. E ainda dizem que nós somos bons. Confunde-se no Brasil bondade com fraqueza moral.

Os fatos estão aí para quem quiser ver e provar que, historicamente nunca fomos um povo bom. Precisamos desmistificar essa auréola de quase santidade de nossa raça. Podemos encontrar bondade no ser humano como individuo e aí, sim, em casos isolados. A bondade só desperta na coletividade, quando uma maciça campanha é levada ao povo pelos principais veículos de comunicação. Nossa maldade se fez presente nos primórdios de nosso descobrimento com a matança de nossos silvícolas, os verdadeiros habitantes de nossa terra. Quantos de nós já ficamos estupefatos diante de imagens de vandalismo nos campos de futebol? E mais estupefatos ficamos ao ver com que sadismo nossa polícia atua nesses casos, hem?

Nosso código penal nunca se preocupou em punir com rigor os foras da lei. Se preocupação existe, sempre foi a de favorecer a raia graúda: empresários, juizes, desembargadores, governantes, políticos e etc., que, por um infeliz acaso e ao se colocarem fora da lei, são flagrados, julgados e condenados ao praticar os maias diversos tipos de ilegalidades, poderiam sofrer duras penas, caso o nosso código penal fosse justo. Seria o caso de se dizer: o feitiço virou contra o feiticeiro. Será que alguém acredita em punição para os responsáveis pela construção do estádio do Engenhão? Já imaginaram a proporção da tragédia que aconteceria com o desabamento das marquises num estádio lotado? Estão acompanhando o jogo de empurra para apurar os culpados por uma obra que, apesar de ter sido superfaturada, apresenta graves erros de construção e de material empregado?

Num pequeno paralelo podemos constatar os gastos do governo com as faraônicas obras superfaturadas dos estádios de futebol para a Copa do Mundo e, em contrapartida, o que se tem gasto para salvar os hospitais públicos e repor moradia aos desabrigados pelas chuvas em todo o Brasil, hem?

Enquanto o novo Papa envia ao mundo mensagens de paz, o louco ditador da Coréia do Norte ameaça, não só a Coréia do Sul e os Estados Unidos com uma possível guerra nuclear. A ameaça seria global, pois o mundo não suportaria uma guerra atônica com a potência atual dos artefatos nucleares.

A ilegalidade vence sempre a legalidade em nosso país. O Diretor do Jardim Botânico foi exonerado por defender o verde e a derrubada e desocupação das várias dezenas de casas construídas ilegalmente nos terrenos do Jardim. O que se pode esperar de nossa Justiça? Justiça? Que Justiça? Atentem para o nosso Código Penal. Querem um exemplo? Pois bem, a pena para o criminoso por ter cometido um crime hediondo poderá chegar a 130 anos. Ou seja, por mais tempo do que, provavelmente ele venha a ter de vida. Porém, por mais hediondo que seja o crime, a pena máxima permitida (não sei se estou errado) é de 30 anos. Mas, por bom comportamento ele poderá ser libertado depois de cumprir um terço da pena. Quantos desses criminosos voltaram às ruas para cometer outros tipos de crime, hem? Já leram sobre isso?

Nos romances policiais ingleses o suspeito é sempre o mordomo; já em nossa Justiça o maior suspeito do crime é a vítima.

E por falar nos 50 tons de cinza, que colorem o Brasil e, porque não dizer, o mundo, não gaste seu dinheiro para comprar esse livro. Dos mais de mil romances que li, esse foi, disparadamente o pior. E não falo por ser imoral, pois que não sou daqueles que tem falso pudor. Julgo e opino por entender que o texto é de mau gosto e mal escrito.

E, afinal, para mim o sexo nunca foi imoral. Imoral é a política.


ÂNGELO ROMERO nasceu no Rio de Janeiro em 05/07/36 e mora a 20 anos em Petrópolis, RJ. É ator, autor, diretor e professor de teatro. Como escritor já escreveu 33 peças e publicou 12 livros: 6 romances, 4 de poesia, 1 de literatura infanto-juvenil e 1 de Curso de Teatro. Escreve crônica para o principal jornal da Cidade e é membro titular das Academias: Brasileira de Poesia e Petropolitana de Letras.



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